
sábado, 17 de outubro de 2009
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Instantes de Um Peregrino Sem Fé
6. Copo Vazio
Uma aragem fresca refrescara a noite e o meu corpo que saltitara de rua em rua. Parei à entrada do pequeno bar. Espreitei para o interior através da porta de vidro. Entrei porque estava vazio de clientes. Com todas as mesas à minha disposição, fiquei indeciso, sem saber onde sentar-me. A empregada, uma mulher morena, com o cabelo muito comprido e um sorriso atractivo, divertia-se, atrás do balcão, com a minha indecisão. Ao fim de três senta-não-senta, ocupei a mesa mais próxima do balcão.
(Boa noite, Sr. Indeciso! O que deseja tomar?)
(Não sei muito bem o que me apetece, Sra. perspicaz. Preciso de mais algum tempo…)
(O bar encerra às duas horas.)
Sorriu-me e afastou-se. Entrou num pequeno compartimento para pôr um dos “Café d’el Mar”.
Regressou ao balcão. Levantei-me e aproximei-me dela.
(Então, já decidiu, Sr. Indeciso?)
(Já. Apetecia-me um copo de companhia com amizade.)
(Companhia posso servir-lhe… Mas amizade não. A não ser que queira trocar a amizade por compreensão. Olhe, que sabe muito bem, um copo de companhia com compreensão!)
Aceitei. Há muito tempo que aprendi a viver sem tudo.
Uma aragem fresca refrescara a noite e o meu corpo que saltitara de rua em rua. Parei à entrada do pequeno bar. Espreitei para o interior através da porta de vidro. Entrei porque estava vazio de clientes. Com todas as mesas à minha disposição, fiquei indeciso, sem saber onde sentar-me. A empregada, uma mulher morena, com o cabelo muito comprido e um sorriso atractivo, divertia-se, atrás do balcão, com a minha indecisão. Ao fim de três senta-não-senta, ocupei a mesa mais próxima do balcão.
(Boa noite, Sr. Indeciso! O que deseja tomar?)
(Não sei muito bem o que me apetece, Sra. perspicaz. Preciso de mais algum tempo…)
(O bar encerra às duas horas.)
Sorriu-me e afastou-se. Entrou num pequeno compartimento para pôr um dos “Café d’el Mar”.
Regressou ao balcão. Levantei-me e aproximei-me dela.
(Então, já decidiu, Sr. Indeciso?)
(Já. Apetecia-me um copo de companhia com amizade.)
(Companhia posso servir-lhe… Mas amizade não. A não ser que queira trocar a amizade por compreensão. Olhe, que sabe muito bem, um copo de companhia com compreensão!)
Aceitei. Há muito tempo que aprendi a viver sem tudo.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
sábado, 10 de outubro de 2009


«Um corpo. Um corpo vertical ou estendido é sempre uma chama: aquece e ilumina. Um corpo respira, abre-se ao sol, floresce na noite. Em silêncio, é pura veemência; quando fala, queixa-se de ser tão frágil e tão só. Mais raramente, diz uma palavra de alegria. Exalta-se; fatiga-se; exaspera-se. A sua voz é a da terra – dali parte, ali regressa. É breve a sua duração, muito breve – quase só o tempo de um suspiro. Mas é belo aquele esplendor. Não há nada mais belo. Da sua existência, deixa às vezes uns sinais. De inquietação; de plenitude. O mais efémero dos seres tem sede de eternidade, quero eu dizer: de outro corpo. Então balbucia, beija, ama, dá um subtil nome às coisas, e das dissonâncias da carne ergue-se à exacta medida do canto, ou de qualquer outra música. A luz torna-se fulguração. Toda a eternidade é isso – e não há outra.»
Eugénio de Andrade, Os Afluentes do Silêncio
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Instantes de Um Peregrino Sem Fé
5. Riacho Interior
Deitei o meu corpo lavado na cama impessoal. Seria a primeira e a última noite que dormiria naquela cama. Nunca me habituei às camas dos outros. Abri um romance que tirei da mochila cada vez mais desarrumada. Retomei a leitura na página assinalada por um pequeno pedaço de papel onde anotava uma ou outra frase que gostaria de ter sido eu a escrevê-la. Tentava matar o tempo e a noite.
Um som constante, apaziguador, embalador, entrava pela janela entreaberta. Fechei o romance. Desliguei a luz do candeeiro e fiquei a decifrar o som que vinha da rua. Era a corrente de um riacho a cair de um declive.
Fechei os olhos. Mas não queria adormecer. A pergunta, que atormentou o final da minha tarde, reapareceu no meu cérebro
(para onde vou).
Acordei com os primeiros raios de sol a entrarem no quarto. Levantei-me da cama para fechar a janela entreaberta. O som do riacho desaparecera. Escancarei as portadas para me debruçar, o mais que pude, no parapeito. Diante dos meus olhos estendia-se um enorme parque de estacionamento.
Deitei o meu corpo lavado na cama impessoal. Seria a primeira e a última noite que dormiria naquela cama. Nunca me habituei às camas dos outros. Abri um romance que tirei da mochila cada vez mais desarrumada. Retomei a leitura na página assinalada por um pequeno pedaço de papel onde anotava uma ou outra frase que gostaria de ter sido eu a escrevê-la. Tentava matar o tempo e a noite.
Um som constante, apaziguador, embalador, entrava pela janela entreaberta. Fechei o romance. Desliguei a luz do candeeiro e fiquei a decifrar o som que vinha da rua. Era a corrente de um riacho a cair de um declive.
Fechei os olhos. Mas não queria adormecer. A pergunta, que atormentou o final da minha tarde, reapareceu no meu cérebro
(para onde vou).
Acordei com os primeiros raios de sol a entrarem no quarto. Levantei-me da cama para fechar a janela entreaberta. O som do riacho desaparecera. Escancarei as portadas para me debruçar, o mais que pude, no parapeito. Diante dos meus olhos estendia-se um enorme parque de estacionamento.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Instantes de Um Peregrino Sem Fé

4. Sé da Guarda
Escolhi o banco mais afastado do altar. Sentei-me. Fiquei em silêncio, a escutar as vozes que trazia comigo. Eram vozes privadas. Os outros não as escutavam. Abri a mochila. Retirei um bloco de notas onde, ao início da manhã, enclausurara uma história. Continuei-a, alheado dos grupos de turistas que iam entrando e saindo do templo de granito. Acrescentei-lhe uma ‘cena’ de sexo, de amor sem amor. Nenhum dos santos, que me observavam do alto dos seus altares, condenou a minha ousadia. Pelo menos, foi isso que senti.
Escolhi o banco mais afastado do altar. Sentei-me. Fiquei em silêncio, a escutar as vozes que trazia comigo. Eram vozes privadas. Os outros não as escutavam. Abri a mochila. Retirei um bloco de notas onde, ao início da manhã, enclausurara uma história. Continuei-a, alheado dos grupos de turistas que iam entrando e saindo do templo de granito. Acrescentei-lhe uma ‘cena’ de sexo, de amor sem amor. Nenhum dos santos, que me observavam do alto dos seus altares, condenou a minha ousadia. Pelo menos, foi isso que senti.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Instantes de um Peregrino Sem Fé
3.Linha da Beira Alta
Há rios que são como algumas pessoas: não deveríamos conhecer-lhes o passado. O Mondego é um desses rios. Da carruagem onde eu era o único ocupante, o meu olhar procurou-lhe o leito . A pouca água que levava encontrava-se estagnada, escura, defunta.
[Leito sem água. Homem sem alma.]
Era tão diferente do Mondego da minha infância, quando acampava, todos os anos, em Figueira da Foz! O parque de campismo ficava na margem sul. Atravessávamos o rio todas as manhãs em direcção ao mercado municipal. Havia semáforos na única ponte que existia. Como eu gostava que o sinal estivesse vermelho, que houvesse fila! Precisava de tempo para admirar aquela imensidão de água cheia de vida, de barquinhos coloridos, de vidas...
Ao aproximar-se da cidade da Guarda, a linha afastou-se definitivamente do rio que não era o da minha memória. Ninguém gosta de aviltar as suas memórias.
[Quem faz os rios e as pessoas são os afluentes.]
Há rios que são como algumas pessoas: não deveríamos conhecer-lhes o passado. O Mondego é um desses rios. Da carruagem onde eu era o único ocupante, o meu olhar procurou-lhe o leito . A pouca água que levava encontrava-se estagnada, escura, defunta.
[Leito sem água. Homem sem alma.]
Era tão diferente do Mondego da minha infância, quando acampava, todos os anos, em Figueira da Foz! O parque de campismo ficava na margem sul. Atravessávamos o rio todas as manhãs em direcção ao mercado municipal. Havia semáforos na única ponte que existia. Como eu gostava que o sinal estivesse vermelho, que houvesse fila! Precisava de tempo para admirar aquela imensidão de água cheia de vida, de barquinhos coloridos, de vidas...
Ao aproximar-se da cidade da Guarda, a linha afastou-se definitivamente do rio que não era o da minha memória. Ninguém gosta de aviltar as suas memórias.
[Quem faz os rios e as pessoas são os afluentes.]
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Apresentação do Romance 'Até à Próxima Lua, Mon Amour', na Centésima Página, em Braga
No dia 3 de Outubro, pelas 18h30m, será apresentado, pela Elisabete Gonçalves, o romance 'Até à Próxima Lua, Mon Amour', na livraria Centésima Página, em Braga. Terei o maior prazer em contar com a vossa presença.
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