sexta-feira, 24 de setembro de 2010

ENCOSTAS A FACE...

Encostas a face à melancolia e nem sequer ouves o rouxinol. Ou é a cotovia?
Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves


à terra de tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,

foi sempre a tua ferida, mas também


foi sobre as dunas a exaltação.
Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.

Eugénio de Andrade



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.


Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.



Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.


Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.


Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.


Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Ferreira Gullar

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Instantes de Um Peregrino Sem Fé

24. Bom apetite (Continuação)

Almocei mais depressa do que era meu hábito. Aprendi com o meu avô a comer devagar

(para não incomodar o estômago),

justificava-se/justifico-me.

Não pedi sobremesa para terminar a refeição ao mesmo tempo do que ela. Levantou-se, dirigiu-se ao balão e pediu à empregada a conta. Pagou e saiu. Eu fiz o mesmo. Saímos do restaurante vegetariano no mesmo minuto. Ela com o seu saco de pano ao ombro e eu com a mochila às costas.

Virou à esquerda e desceu a rua. Seguia-a a poucos metros de distância, sem reflectir, deixando-me levar pela obsessão. Sentia uma espécie de embriaguez sentimental.

Atravessou uma rua onde os carros dispunham de três faixas de rodagem e dirigiu-se para Sul. Cerca de trezentos metros à frente, parou e olhou para trás, para mim. Ao aperceber-me de que ela me esperava com o olhar, parei e fique estatuado a encará-la. Desta vez não retirei os olhos dos dela. As pessoas passavam sem reparar em nós. Sorriu-me com um sorriso triste. Quando, finalmente, reuni a coragem suficiente para ir ao seu encontro, ela prosseguiu o seu rumo, entrando numa rua estreita e sombria. Eu fiquei sem saber o que fazer. Decidi seguir em frente até ao início da rua onde ela tinha entrado. Apercebi-me de que havia bastante movimento nessa rua. Procurei-a com o olhar. Ela desaparecera. Fiquei a ler uma placa que informava todos os transeuntes de que não era aconselhada a permanência de menores de dezoito anos, naquela rua, devido aos inúmeros estabelecimentos ligados ao erotismo e, sobretudo, ao sexo.

O meu desnorte foi interrompido pela voz de um homem a perguntar-me as horas. Eu respondi-lhe e ele não me agradeceu. Voltei a ver as horas. Faltavam quarenta minutos para o comboio partir e a estação ficava ao fundo daquela longa avenida.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Granito & Água

Instantes de Um Peregrino Sem Fé

23. Bom apetite

Após ter perguntado a várias pessoas e de ter vasculhado quatro ruas estreitas do Centro Histórico do Bairro Medieval da cidade, encontrei, finalmente, o restaurante vegetariano. Passavam catorze minutos do meio-dia. Abri a porta de vidro e senti o impacto do ar condicionado no meu corpo suado.
Uma empregada aproximou-se de mim com um sorriso e um comprimento.
(Faça o favor de escolher a mesa onde pretende almoçar),
sugeriu-me amavelmente.
Cirandei com o olhar pela sala. Apenas uma mesa estava ocupada por uma mulher que me observava disfarçadamente. Escolhi uma mesa encostada à parede de vidro através da qual se avistava o movimento da rua. Sentei-me de frente para ela, que deveria ter cerca de vinte e poucos anos de idade. Tinha um olhar desamparado. Os dedos das mãos eram compridos. O pescoço alto e os ombros estreitos. Vestia uma camisa justa e decotada, deixando perceber a brancura da pele.
A empregada saiu da cozinha e trouxe-lhe um prato com uma tarde de legumes. Escutei a voz dela a agradecer
(obrigada).
[Voz de criança em corpo gasto.]
A empregada desejou-lhe
(bom apetite)
e deixou-a a olhar para o prato, dirigindo-se para a minha mesa
(hoje temos empadão de…).
Interrompi, decidido
(opto pela tarte de legumes).
Sorriu-me e dirigiu-se para a cozinha, permitindo-me observar a sala. Havia quadros de paisagens e de pessoas orientais. Tentei analisar pormenorizadamente um deles, onde aparecia um rosto de velho a fumar. Contudo, a minha atenção persistia em fugir para ela, que comia lentamente a tarte de legumes. Mal o nosso olhar se cruzou, e isso aconteceu três ou quatro vezes, era sempre eu a retirá-lo, a fugir, a cobardear. {Começa a aborrecer-me o facto de o Word sublinhar as palavras que invento}
A empregada trouxe-me o chá de erva de príncipe e a tarte de legumes.
(Bom apetite.)
(Obrigado.)
Continuará...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Vidros partidos

«Vamos, poema de amor, levanta-te do meio de vidros partidos, porque chegou a hora de cantar.
Ajuda-me, poema de amor, a restabelecer a integridade, a cantar sobre a dor.
É verdade que o mundo não se limpa de guerras, não se lava de sangue, não se corrige do ódio. É verdade.
Mas é igualmente verdade que nos abeiramos de uma evidência: os violentos reflectem-se no espelho do mundo e o seu rosto não é belo, nem para eles mesmos.
Continuo a crer na possibilidade do amor. Tenho a certeza do entendimento entre os seres humanos, conseguido sobre as dores, sobre o sangue e sobre os vidros partidos.»

Pablo Neruda, Confesso que vivi 

terça-feira, 20 de julho de 2010

Mel

Abelha enganada procura flor com alma

Corrente cansada desce o vale

Adolescente apalpa o desconhecido

Homem desencontrado consome o passado

Criança devora o mel da abelha enganada.

Não me deixes morrer à distância.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Traz-me

Traz-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traz-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traz-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!

Cecília Meireles

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Poema Erótico

'Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo
de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem.
A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste.
Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor!
Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos.
Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.
Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste no meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar.
Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força.
Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos.
Só descansarei quando vir sair o sangue quente do teu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti, mosquito Filho da Puta!

     Carlos Drummond de Andrade

domingo, 2 de maio de 2010

Morre lentamente quem não diz, quando lhe apetece, gosto de ti...

"Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.


Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.


Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.


Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.


Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.


Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!»


    Pablo Neruda


terça-feira, 27 de abril de 2010

O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chuparam displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói
o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando
seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos
inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da
idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de
secretário-geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha
alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito
humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se
considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
 
Poesia de Mário de Andrade

sábado, 17 de abril de 2010

Convite

Exmo (a) Senhor (a),
Venho por este meio convidar Vossa Exa. para a apresentação do Romance do Escritor e Professor Carlos Teixo, Até à Próxima Lua, mon Amour.

Local:
Missão Portuguesa
Vilbeler Str. 36
60313 Frankfurt

Hora:
17:00 h
- Apresentação do livro Até à Próxima Lua , Mon Amour
- Debate / Troca de Ideias
- Musica ( Cantamigo)
-Lanche-convívio

Em anexo segue uma breve apresentação do Autor, bem como uma sinopse do livro.
Agradeço desde já a presença de todos.
Sejam felizes e tragam felicidade convosco!

Carla Moita

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Para sempre

Por que Deus permite que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo
baixava uma lei:
Mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

 Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 6 de abril de 2010

Instantes de Um Peregrino Sem Fé

22. Para Sul ( Continuação)



    A voz do condutor avisou-me
    (chegamos).
    A rapariga desapertou o cinto, movimentou os lábios carnudos e perguntou-me

    (conheces os Muse).
    Sorri-lhe e respondi-lhe.
    Deixaram-me perto da entrada do recinto de um festival de Verão. Ela foi comprar os bilhetes e ele ficou a fumar encostado ao carro. Afastei-me alguns metros. Sentei-me à sombra de um jipe. Decidi, em pouco tempo, ficar por ali. Comprei o bilhete e entrei.
    Acampei no recinto do festival, apesar de não ter tenda. Deitava-me numa tenda que estivesse desocupada. Deixava-me dormir. Quando chegavam os inquilinos, normalmente deixavam-me ficar. E eu ficava a dormir com desconhecidos.
    No último dia de festival, assisti ao concerto de uma banda inglesa. Era a banda cujas músicas ouvira, várias vezes, durante a viagem. A banda chamava-se Muse.
    No final do concerto, deitei-me na primeira tenda desocupada que encontrei. Sentia-me exausto. Adormeci facilmente. Acordei com os primeiros raios de sol. A meu lado encontrava-se deitada uma rapariga, com a cabeça pousada no meu peito, a olhar-me com uns brilhantes olhos azuis. Movimentou os seus lábios carnudos e perguntou-me
   (gostaste dos Muse).
   Sorri-lhe e respondi-lhe.
   (Onde está o rapaz que me deu boleia),
   Perguntei-lhe.
   Sorriu-me e respondeu-me.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Ipsis Verbis

«Os factos só são verdadeiros depois de serem inventados.» (Crença de Tizangara)


«Os novos-ricos se passeavam em território de rapina, não tinham pátria. Sem amor pelos vivos, sem respeito pelos mortos. Eu sentia saudade dos outros que eles já tinham sido. Porque, afinal, eram ricos sem riqueza nenhuma… se iludiam tendo uns carros, uns brilhos de gasto fácil. Falavam mal dos estrangeiros, durante o dia. De noite, se ajoelhavam a seus pés, trocando favores por migalhas. Queriam mandar, sem governar. Queriam enriquecer, sem trabalhar.»


«Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz.»


«Conhece a diferença entre o sábio branco e o sábio preto? A sabedoria do branco mede-se pela pressa com que responde. Entre nós o mais sábio é aquele que mais demora a responder. Alguns são tão sábios que nunca respondem.»


«Do que mais lembro jamais eu falo. Só me dá saudade o que nunca recordo. Do que vale ter memória se o que mais vivi é o que nunca se passou?»


         Mia Couto, O Último Voo do Flamingo

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A propósito de 'Até à Próxima Lua, Mon Amour'

"É surpreendente o fôlego com que escreves, admiro a tua coragem em partilhá-lo e publicar este feliz nubente.
A visita ao interior de um homem em reconstrução é desconcertante por a travessia ser constituída por sombras com intermitências de luz. É q.b. intenso mas depressivo, denso e fosforescente, o insustentável peso dos gestos, os equívocos da linguagem não verbal; o caminho torna-se hesitante, gagueja entre flutuar e encaracolar. A vida, o sorriso, as inúmeras tentativas de chegar ao Outro, chegando-se a si-próprio, ou talvez não.
Obrigada por estares ..."


Abraço da planície,


Cristina


P.S.: Espero não ter sido "dura".

sábado, 27 de março de 2010

Instantes de Um Peregrino Sem Fé



21. Para Sul (Continuação)

A estrada estendia-se pela planície, paralela ao mar. O condutor conduzia devagar. O dia começava a aquecer velozmente. Os vidros da frente iam abertos. O vento refrescava-me o cérebro em pousio. O carro era mais velho do que eu pensava. Mas o rádio era mais moderno do que eu pensava e comia discos compactados e tocava as mesmas músicas.
Não tinha nada para lhes dizer. Há vários dias que não dizia nada a ninguém. Ou seriam anos? Ou serão anos? Por isso, mantive-me em silêncio, a olhar, ora para a paisagem que ia ficando para trás, ora para as nucas de dois estranhos. O rapaz, o condutor, tinha o cabelo rapado. A rapariga tinha o cabelo alourado, pelos ombros. Ambos cantavam as músicas. Conheciam as letras das canções.
Fechei os olhos no preciso instante em que se preparavam para ouvir pela terceira vez o mesmo disco compactado. Encostei a cabeça ao banco a cheirar a passado. Tentava em vão não pensar em nada. O carro parou. Abri os olhos. O condutor saiu para abastecer o carro com gasolina. A rapariga também saiu e dirigiu-se para o interior da loja. Tinha um corpo jovem. Deveria ter aproximadamente dezoito anos. Ela regressou ao carro antes do rapaz. Sentou-se e virou-se para o banco de trás, onde eu estava sentado, sem me poder mexer, com a minha mochila em cima das pernas, o único espaço disponível para a levar. E ficou a olhar-me com os seus olhos azuis, em silêncio. E eu fiquei a olhá-la, em silêncio, como se tivesse regressado ao tempo em que jogava ao sério. O condutor entrou no carro. Arrancámos novamente em direcção ao sul. Ela retirou o olhar de mim. Pôs o cinto e ligou o rádio para ouvirem as mesmas músicas.

         A continuar...

sábado, 20 de março de 2010

Sonho da mãe negra

Mãe negra
Embala o seu filho
E a sua cabeça negra
Coberta de cabelos negros
Ela guarda sonhos maravilhosos



Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Que o milho já a terra secou
Que o amendoim ontem acabou


Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho iria à escola
À escola onde estudam os homens


Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Os seus irmãos construindo vilas e cidades
Cimentando-as com o seu sangue


Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho correria na estrada
Na estrada onde passam os homens


Mãe negra
Embala o seu filho
E escutando
A voz que vem de longe
Trazida pelos ventos


Ela sonha mundos maravilhosos
Mundos maravilhosos
Onde o seu filho poderá viver…

              Marcelino dos Santos

terça-feira, 9 de março de 2010

Instantes de Um Peregrino Sem Fé

20. Para Sul (continuação)



           Levantei a mochila do chão e andei meia dúzia de metros pela berma da estreita estrada que rumava ao Sul. Parei de frente para os carros. Aproximou-se um carro muito velho com um casal muito novo. A matrícula era estrangeira. Os ocupantes tinham olhar de estrangeiros. O carro parou no preciso instante em que eu me preparava para pedir-lhe boleia. A mulher do casal desprendeu o cinto de segurança, debruçou-se para o banco de trás e afastou uma amálgama de objectos que ocupavam todo o banco, amontoando-os num dos lados do banco. Abriu-me a porta por dentro e eu entrei. O carro arrancou.
    O condutor deveria ter cerca de vinte anos de idade. A cabeça dele, vista de perfil, fazia lembrar-me uma ave de rapina. Tinha uma voz encorpada. Com ela perguntou-me, em inglês
   (para onde queres ir?).
   (Para onde me levarem.)
   A rapariga aumentou o volume do rádio e prosseguimos viagem.

        Continua...

domingo, 7 de março de 2010


"(...) Um lagarto-de-água adormeceu à sombra de uma urze. A corrente do rio Homem calou-se, desaparecendo rapidamente até secar por completo. Liátana sentiu no seu interior uma espécie de chamamento, uma vontade sobre-humana para mudar de margem ( ...)"


"(...)Em ambos nasciam palavras mudas, sem rosto, interiores. Uma brisa aromática transportava esses silêncios de um corpo para o outro. A tarde caiu (...)."

quarta-feira, 3 de março de 2010

Instantes de um Peregrino sem Fé

 


19. Para Sul

Porto Covo.
Entrei numa lojinha atulhada de tudo-e-mais-alguma-coisa. Comprei uma camisola em dois minutos. Sentei-me num banco e despi a camisola que trazia vestida, indiferente aos veraneantes que, aos magotes, romariavam para a praia. Estendi a camisola que acabara de comprar e vestia-a. Procurei um caixote do lixo. Encontrei-o em pouco tempo. Há tantos caixotes do lixo nas nossas vilas e cidades. E ainda há lixo no chão!
Pendurei numa pequena árvore vizinha do caixote do lixo a camisola que despira. Tinha de livrar-me dela, como quem se livra de um velho num depósito de velhos, pois estava suja e já não cabia na mochila. A minha consciência ficaria mais leve com a ilusão de que alguém a levasse para casa, a lavasse e a voltasse a vestir.
Encaixei a mochila nas costas e fui saindo de Porto Covo da mesma forma que, no dia anterior, fora entrando: a pé. Andei. Andei. Fui indo. Os carros passavam por mim, olhavam para mim, mas não abrandavam. Apesar de serem dez da manhã, já estava muito calor (detesto a expressão ‘fazer calor’). O mar prendera a brisa.
Deparei-me com um cruzamento. Li os nomes das localidades escritas na placa que apontava para Sul. Parei durante alguns minutos, com a mochila pousada no chão, encostada às minhas pernas. Fechei os olhos. Os carros passavam pelo meu corpo suado, deixando para trás um rasto de incómodo. Abri os olhos com uma decisão tomada. Apressei-me a comunicá-la a mim mesmo e em primeira-mão
    (vou para Sul).

Continua...

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Lua adversa

Árvore,
Este poema podia ter sido escrito por mim e sobre mim. Também acho que o entendes perfeitamente porque creio que te identificarás um pouco com ele.
É bonito, isso eu sei. Por isso também vai para ti.


Lua adversa

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser tua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu....

Cecília Meireles

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Antemanhã


O mostrengo que está no fim do mar
Veio das trevas a procurar

A madrugada do novo dia,
Do novo dia sem acabar;
E disse: «Quem é que dorme a lembrar
Que desvendou o Segundo Mundo,
Nem o Terceiro quer desvendar?»

E o som na treva de ele rodar
Faz mau o sono, triste o sonhar,
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar.
Que veio aqui seu senhor chamar –
Chamar Aquele que está dormindo
E foi outrora Senhor do Mar.

Fernando Pessoa, Mensagem


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Instantes de Um Peregrino Sem Fé

18. Bom dia!

Há vários meses que percorro a mesma estrada municipal. Já decorei os buracos no macadame, todas as tampas de saneamento e as curvas desniveladas. Habituei-me a ultrapassar os mesmos autocarros que transportam alunos para as escolas como se fossem barcaças a atravessar o estreito Mediterrâneo a abarrotar de esfomeados. Reconheço os carros e os condutores que, tal como eu, passam nos mesmos lugares à mesma hora.
[O ser humano é incorrigivelmente rotineiro.]
Nos três últimos quilómetros encontrava todas as manhãs, na mesma recta, o mesmo carro metalizado, o mesmo rosto de mulher atenta à estrada. Um dia frio de sol, inexplicável e instintivamente, acenei-lhe ao cruzar-me com o carro dela. No dia seguinte, frio de chuva, ela acenou-me. A partir desse dia, acenámo-nos.
Na semana passada, atrasei-me cerca de meia hora. Quando me aproximei da recta, apercebi-me de que não teria ninguém a quem acenar. Entrei na recta com uma profunda e estranha inquietação. Ao aproximar-me do final da recta, deparei-me com um corpo sinalizado a ordenar-me que abrandasse. Obedeci imediatamente. Tratava-se de um polícia. Pediu-me, com gestos, que circulasse devagar, com prudência e que o fizesse pela faixa de rodagem contrária àquela em que o meu carro circulava. Conclui que haveria algum obstáculo na curva que estava prestes a curvar. Confirmou-se a minha dedução. Estava um carro acidentado, provavelmente sem conserto. Olhei para a traseira do carro. Era metalizado. Reconheci imediatamente a matrícula. Era o carro dela. Encostei o meu carro. Corri para o local do acidente. Mas não a encontrei. Nesse instante, uma ambulância ligou a sirene e arrancou aflita.
Há uma semana que passo na mesma recta, no final da qual existe uma curva desnivelada com um muro derrubado por um carro de uma condutora a quem eu gostaria tanto de voltar a acenar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Amigos

" A palavra é uma Árvore, as Árvores são abraços, algumas pessoas são Árvores."
            Cristina Santos, artesã de palavras e de amizades



domingo, 31 de janeiro de 2010

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Ipsis Verbis



«Deve ser possível, penso eu, viver plenamente a vida em setenta horas como em setenta anos...»

«Gosto de ti porque consigo ler no teu coração. E quando dizes que mentes, não são mentiras importantes.»
             Ernest Hemingwai, Por quem os sinos dobram

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Algarve, ano de 1996
Início de noite,
de sábado,
quando um poeta mergulhava nas profundezas
da solidão.
Quão absurda era ou é a vida!
um homem só a fazer crer a homens sós que não estão sós.
Rádio Lagoa (ainda emite?)
Older, excelente.
Escutá-lo-ei
até haver noite e palavras ansiosas por vida.




domingo, 17 de janeiro de 2010

Granito & Água - Parte IV





Itinerário de Um Peregrino Sem Fé

17. Bairro Alto


Jantei num restaurante em Alcântara onde a ASAE teria muito que bisbilhotar. Era noite de sábado. No final do jantar, subi a pé até à Lapa onde ficaria alojado essa noite. Pelas ruas deparei-me com um silêncio estranho, inesperado - um silêncio de aldeia. Era possível escutar as minhas vozes mais profundas. Uma brisa subia do rio e massajava-me a pele.
Uma voz amiga

(estamos em Lisboa… É sábado… Bairro Alto).
Fiz o que todos fazem, em rebanho, no Bairro Alto. Itinerei de rua em rua, de bar em bar, de música em música, de bebida em bebida, de conversa em conversa, de observação em observação, vi e, talvez, tenha sido visto.
A noite já ia adiantada quando regressei à casa desconhecida para tentar o que não consegui: dormir três ou quatro horas. Fiquei acordado a acalmar o mesmo vazio que levara dentro de mim ao início da noite.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ipsis Verbis



«Ligar o amor à sexualidade foi realmente uma das ideias mais bizarras do criador.»

«Mas o frágil edifício do amor deles desmoronar-se-ia imediatamente porque esse edifício repousava sobre o pilar único da sua fidelidade e os amores são como os impérios: desaparecendo a ideia sobre a qual estão construídos, também eles desaparecem.»

«Nos dias que correm, quem apaga a luz para fazer amor arrisca-se a cair no ridículo; como ele tem consciência disso, deixa sempre uma luzinha acesa por cima da cama. No entanto, no momento em que penetra em Sabina, fecha os olhos.»


«Para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúnam nele como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis.»


«A partir de então, ambos sentiam antecipadamente um grande prazer na partilha do sono. Sinto-me quase tentado a dizer que o que procuravam no acto sexual não era a volúpia mas o sono que se lhe segue.»

    Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser
                        

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Instantes de Um Peregrino Sem Fé

16. Miradouro da Graça



Nunca gostei de cidades despovoadas, como se fossem gigantescos cemitérios com mausoléus multiformes e multicolores. As ruas de Lisboa encontravam-se praticamente desertas de lisboetas. E os turistas eram mais silenciosos e menos apreçados. A pressa torna-nos incivilizados.
Subi as ruas íngremes e estreitas até ao Miradouro. Não me cruzei com carros, com buzinas, com impropérios dos condutores para outros condutores, com pessoas a desviarem-se furtivamente de outros sem-tempo-a-perder.
[O tempo gasta-se. Não se ganha.]
Havia muitos turistas no Miradouro da Graça. Falava-se inglês e português de várias regiões. As esplanadas estavam a empanturradas de pessoas a conversar, a beber, a ouvir, a ler, a olhar, a observar, a ser observada, a pensar, a tentar fazer tudo isso. Eu fui uma das últimas. Eu fui também uma das que ficou melancólica com o lento definhar da capital, um retrato das cidades antigas deste país sentado a ver ruir o passado, enquanto o fino, perdão, a imperial, não aquece. Lisboa envelhece sem dignidade.
Do miradouro da Graça, avistei uma cidade de costas voltadas para o passado e às apalpadelas ao futuro.